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sábado, julho 16
 


 
I sobre a foto La mujer que sueña de Flor Garduño

O homem perdeu o sono
a luz veio, o olhar se pôs
na imagem do Centauro.

Que palavra se resume
plaina, cabeça, foguete
de suas auréolas de guerra?

Que palavra com que possa
deter a vazante de sombra
o pássaro sem nuvens?

A imagem se compunha
de chuva, de terremoto.
E dizia-me: tem medo.

A residência perdida,
os chinelos junto à cama,
a aspereza da noite.

A tibieza do sangue
magro, a pouca saliva.


sexta-feira, agosto 27
 



 
III da série Imagens sobre Compression de Paolo Rosselli

Não tive coragem de arrancar violento o espaço.

Estranha lucidez, esses olhos distantes
recusando-nos.

Nos muros curvos, na reflexão dos vidros.
Água metálica, assim: interroguei a esfinge.

E o silêncio que convinha às horas invisíveis.
A imagem do corpo, densidade. Para aquele
que se acredita entre os outros, e crê quase tocá-los.

Como dizer minha liberdade, ansiosa
reclusão. E os olhos, que observam correr as imagens –
rio de matéria, e de urzes – não.

Nas paredes de pedra, na renúncia ao que dispersa.
Na explosão ingênua, tornando familiar os caminhos de sombra.


terça-feira, agosto 24
 



 
IV da série Sonetos sobre Untitled (Egypt) 1987, de Toshio Shibata


O amor tudo suporta e tudo espera:
e assim, embora quedos de fumaça,
com bem pouca visão da estrada obscura,
soprávamos a tarde, desgarrados
das horas mais seguras, nós que estávamos
com a pressa do trabalho e os dias cheios.
Eu traduzia tanto, e era tão livre.
E o cântaro fendido da palavra
pediu que eu duplicasse a minha lâmina
e, assim, fizesse de outro a boca escusa.
Para dizer da viagem que propaga
os sentidos e os cala, do difícil
retorno da palavra, finda a bruma,
com a clareza dos dias e das noites.


sábado, julho 31
 



 
Retornos sobre Naguri Village, Saitama, Prefecture, Japan
2001
de Toshio Shibata

As pedras no sol contêm tuas águas de moça.

E é fundo o intraduzível, o vazio. Às vezes,
sopramos o fogo para além das represas, no ruído do mar
doce, tropeçando

um tanto de pedras menores, um tanto de folhas.

A estação vinha com suas manchas de carvão, no rosto.
As sombras do tabaco, do banho e das marinas.

N'outras, erguíamos esses muros: tempo do retorno
cotidiano das fugas, a família, a boa consciência.

Eles estão apoiados contra o céu, exílio do astro.

E é, no entanto, verdade que podemos ausentar-nos,
cumprir a promessa.


terça-feira, junho 15
 


 
V da série Sonetos sobre Strom de Josef Sudek

Hesito entre a palavra e o céu: a escura
conformação da tarde se transluz,
rastro de estampa, mágica espessura
imperfeita das nuvens. Essa luz
que tanto nos engana e mais se apura
rasgada pelo vento, íris de azuis,
divide-me: sou meio e na fissura
entreaberta da tarde me seduz
outro canto, outro olhar, outra cisura.
E feito desses cortes, desse pus
que se separa em lâmina, e que fura
a aspereza da carne, assim reluz
num brilho de ouro gasto outra verdade
e, assim, ergue-se ao corpo a espessa tarde.